Luciano Bastos Guitar
Stevie Ray Vaughan
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Perfil do Artista

Stevie Ray Vaughan

16 min de leitura
··Por Luciano Bastos / Luciano Bastos Guitar
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Dados Básicos

CampoInformação
Nome completoStephen Ray Vaughan
ApelidoSRV
Data de nascimento3 de outubro de 1954
Data de falecimento27 de agosto de 1990
NaturalidadeDallas, Texas, EUA
NacionalidadeAmericano
GênerosTexas Blues, Blues Rock, Hard Rock
InstrumentoGuitarra elétrica
Stevie Ray Vaughan ao vivo no Ritz Theater, Austin, 1983
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Introdução

Há guitarristas que tocam blues. E há Stevie Ray Vaughan — um homem que era o blues em forma humana. Quando ele encostava os dedos nas cordas da sua Stratocaster surrada, algo acontecia que a teoria musical não consegue explicar completamente: o som sangrava. Em cada nota havia uma confissão, em cada bend uma dor transformada em alegria, em cada solo uma história que qualquer pessoa, em qualquer língua, conseguia entender.

SRV surgiu num momento em que o blues parecia ter sido empurrado para as margens da cultura popular. Era 1982, e o mundo estava obcecado com sintetizadores e produção polida. Stevie Ray Vaughan subiu ao palco do Montreux Jazz Festival — a primeira banda não-contratada a se apresentar no festival — e tocou com uma ferocidade que fez o público se levantar e David Bowie ir correndo falar com ele nos bastidores. Em questão de meses, o blues tinha voltado ao centro.

Sua carreira mainstream durou apenas sete anos. Sete anos para gravar cinco álbuns de estúdio, ressuscitar um gênero, e deixar uma marca tão profunda que guitarristas como John Mayer, Gary Clark Jr. e Kenny Wayne Shepherd ainda passam décadas tentando capturar uma fração do que ele fazia parecer natural. Em 27 de agosto de 1990, uma queda de helicóptero no Wisconsin levou SRV aos 35 anos. O blues perdeu seu maior porta-voz moderno. O mundo ainda lamenta.

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Primeiros Passos

Stephen Ray Vaughan nasceu em 3 de outubro de 1954 em Dallas, Texas, filho de Martha Jean e Jimmie Lee Vaughan. Cresceu em Oak Cliff, um bairro operário do sul de Dallas, numa família que respirava música. Seu irmão mais velho, Jimmie Vaughan — que viria a ser guitarrista dos Fabulous Thunderbirds — foi a primeira grande influência. Stevie começou a imitar o irmão ainda criança, pegando qualquer instrumento que encontrasse pela casa.

Aos oito anos já tocava guitarra com dedicação obsessiva. Antes disso, tinha chegado a pegar um cabo de vassoura fingindo que era um instrumento — tal era a necessidade de ter algo nas mãos. Enquanto a maioria das crianças da sua idade jogava bola, Stevie desmontava disco por disco: Jimi Hendrix, Albert King, B.B. King, Lonnie Mack. Ele não aprendia músicas — ele absorvia mundos inteiros.

Aos 17 anos, Stevie Ray largou o ensino médio e se mudou para Austin, Texas, que na época era o epicentro da cena blues do país. Austin era uma cidade que levava a sério a música ao vivo, com clubes abertos toda noite e uma audiência que entendia o que estava ouvindo. Stevie passou anos tocando em diversas formações antes de encontrar o lineup definitivo que o tornaria imortal.

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Influências Musicais

Albert King
Solo

A influência número um, segundo o próprio SRV. De King veio a abordagem de bending — especialmente a técnica de dobrar para cima a partir de notas baixas da escala menor, criando aquela tensão lancinante que ficou sendo chamada de "som de Albert King". SRV absorveu isso de forma tão completa que o tornou próprio.

Jimi Hendrix
The Jimi Hendrix Experience

A liberdade absoluta e o senso de que a guitarra pode fazer qualquer coisa. Hendrix mostrou a Vaughan que expressão não tem limite técnico — e SRV respondeu com uma versão de "Little Wing" que muitos consideram superior ao original em profundidade emocional. Os dois compartilham aquela qualidade de fazer a guitarra parecer um ser vivo.

B.B. King
Solo

O vocabulário do vibrato e a arte de fazer uma única nota durar uma eternidade. De B.B. King, SRV aprendeu que no blues menos é mais — mas esse "menos" precisa ter um peso específico que só vem de décadas de escuta e experiência.

Freddie King
Solo

O ataque direto e a força bruta canalizada com precisão. Freddie King tinha uma maneira de atacar as cordas que entrava no amplificador como um soco, e Vaughan desenvolveu seu próprio ataque de braço — usando o antebraço inteiro, não apenas o pulso — a partir dessa referência.

Lonnie Mack
Solo

O tremolo de braço frenético e a velocidade controlada. Mack era um dos guitarristas mais rápidos do blues dos anos 60, e SRV absorveu sua capacidade de acelerar e desacelerar dentro de uma frase como um ato expressivo, não apenas técnico.

Jimmie Vaughan
The Fabulous Thunderbirds

O irmão mais velho foi o primeiro professor, a primeira inspiração e o espelho pelo qual Stevie mediu seu progresso por anos. Jimmie tinha um estilo mais econômico e elegante — e essa influência aparece nos momentos em que SRV escolhia a nota certa em vez de dez.

Eric Clapton
Cream / Derek and the Dominos
A ponte entre o blues britânico e o americano. Eric Clapton demonstrou que o blues podia chegar a públicos enormes sem perder sua integridade, e que a guitarra elétrica tinha uma voz capaz de romper qualquer barreira cultural.
Jimi Hendrix / Buddy Guy

Além das influências individuais listadas, Stevie Ray também citava com frequência Buddy Guy, Albert Collins, Guitar Slim e o jazz de Wes Montgomery e Django Reinhardt como referências que alargavam seu vocabulário harmônico.

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Bandas e Projetos

Banda / ProjetoPeríodoÁlbuns Notáveis
Cast of Thousands / Triple Threat Revue1972–1978
Stevie Ray Vaughan and Double Trouble1978–1990Texas Flood (1983), Couldn't Stand the Weather (1984), Soul to Soul (1985), In Step (1989)
Sessões com David Bowie1982–1983Let's Dance (1983)
Family Style (com Jimmie Vaughan)1990Family Style (1990, póstumo)
Stevie Ray Vaughan e sua Number One Stratocaster
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Instrumentos e Equipamentos

🎸Guitarras
Sua guitarra principal — uma Strat de 1962/63 que SRV chamava de '59'. Usada em praticamente todo show e gravação. Teve o braço trocado várias vezes pelo técnico Rene Martinez. Pescoço de maple, cordas .013, montagem de ponte esquerda invertida à la Hendrix.
Uma Strat de 1963/64 comprada de surpresa pela esposa Lenora e amigos para o aniversário de SRV. Acabou sendo o instrumento que inspirou a faixa instrumental 'Lenny' do álbum Texas Flood.
Hamiltone Custom Stratocaster
Guitarra customizada presenteada por Billy Gibbons via James Hamilton em 1984. Usada em shows e sessões ao longo dos anos 80.
Uma das Strats de backup, usada frequentemente em turnê como segunda guitarra.
🔊Amplificadores
Fender Vibroverb (1963)
O coração do rig ao vivo de SRV na maior parte dos anos 80. Par de Vibroverbs de 1963 com alto-falante de 15 polegadas — a fonte principal do overdrive orgânico e quente que definia seu som.
Dumble Steel String Singer
Encomendado após a gravação de Texas Flood no estúdio de Jackson Browne (onde havia um Dumble). Entregue em 1984, tornou-se o principal amp para limpeza e dinâmica — SRV o chamou de 'King Tone Consoul'. Modificado pelo próprio Dumble com tubos 6550 e 150W.
Marshall Major
Usado para adicionar camadas de peso e agressividade ao som. Combinado com os Vibroverbs no palco para criar um muro de som inigualável.
Pedais
Ibanez TS9 Tube Screamer
O pedal mais associado ao tom de SRV. Usado com drive baixo e volume alto para fazer o amp distorcer mais — um boost mais do que um overdrive por si só. Versão TS808 também foi usada em diferentes períodos.
Vox Wah (Clyde McCoy)
O wah preferido de SRV, especialmente no início da carreira. Aparece em 'Cold Shot' e em diversas improvisações ao vivo.
Dallas-Arbiter Fuzz Face
Para momentos de distorção mais pesada e textura psicodélica, herdado diretamente do arsenal de Hendrix.
MXR Dyna Comp
Compressor leve usado seletivamente para sustentar e equalizar o ataque em passagens mais delicadas.
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Técnicas Principais

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Texas Shuffle — O Groove que Define o Texas Blues
O Texas shuffle é a assinatura rítmica de SRV e a espinha dorsal de músicas como "Pride and Joy". Trata-se de um padrão de baixo em colcheias com swing aplicado, combinado com acordes de dominante tocados no médio registro da guitarra — criando uma sensação de movimento constante que faz qualquer ouvinte bater o pé involuntariamente. Mais do que uma técnica, é uma mentalidade rítmica que distingue o Texas blues do blues de Chicago. Aprenda mais em Técnica de Bending.
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String Bending com Inflexão Vocal

SRV herdou de Albert King uma abordagem de bending que soa como um cantor errando de propósito — e acertando em cheio. Ele dobra as cordas usando três dedos juntos (índice, médio e anelar) para ter força máxima, alcançando intervalos de até dois tons e meio com precisão absoluta de afinação. O que diferencia seu bending de outros guitarristas é o momento em que ele ataca a nota: geralmente ligeiramente após o tempo, criando uma sensação de urgência contida. Aparece de forma exemplar em "The Sky Is Crying" e "Riviera Paradise".

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Vibrato de Braço Largo (Wide Wrist Vibrato)

O vibrato de SRV é imediatamente reconhecível: largo, profundo e consistente. Executado principalmente com o pulso inteiro em vez de apenas os dedos, ele produz uma oscilação de pitch que aproxima o som da guitarra do vibrato de um vocalista de blues. A velocidade varia conforme a intensidade emocional da frase — rápido e frenético em clímax, lento e choroso em momentos de resolução. É o tipo de vibrato que faz uma nota ainda estar "viva" dois segundos depois de ser tocada.

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Ataque de Braço Completo (Full-Arm Picking)

Diferente da maioria dos guitarristas que pivotam pelo pulso, SRV usava o antebraço inteiro para atacar as cordas. Esse movimento de amplitude maior transmitia muito mais energia ao amplificador — literalmente empurrando os tubos dos Vibroverbs para saturação com o peso físico do ataque. Combinado com cordas calibre .013 afinadas meio tom abaixo (em Eb), o resultado era um som com uma massa e uma presença que nenhuma configuração de pedaleira consegue replicar sem esse componente físico.

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Double Stops e Acordes Parciais no Blues

SRV usava double stops — dois sons tocados simultaneamente — com uma frequência e criatividade que vinham diretamente de Robert Johnson e Chuck Berry, mas transformados num contexto de alta voltagem. Em "Pride and Joy", os double stops no groove rítmico criam uma textura que soa como dois guitarristas tocando ao mesmo tempo. Nos solos, eles aparecem como pontuações expressivas entre frases de escala pentatônica, adicionando harmonia e textura onde outros guitarristas colocariam apenas notas únicas.

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Músicas Essenciais

Ouça Stevie Ray Vaughan no streaming

SpotifyYouTube
01
Pride and Joy
1983
02
Texas Flood
1983
03
Couldn't Stand the Weather
1984
04
Little Wing
1983
05
Lenny
1983
06
Crossfire
1989
07
Riviera Paradise
1989
08
Life Without You
1985
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Curiosidades

Primeira banda não-contratada no Montreux
Em 1982, Stevie Ray Vaughan e Double Trouble se tornaram a primeira banda sem contrato de gravação a se apresentar no Montreux Jazz Festival, na Suíça. A performance dividiu o público — parte aplaudiu de pé, parte vaiou o volume e a intensidade do blues elétrico. David Bowie estava na plateia e foi direto aos bastidores convidá-lo para gravar o álbum Let's Dance.
As cordas pesadas e a afinação baixa

SRV usava cordas calibre .013 a .058 — praticamente um calibre de guitarra slide — e ainda as afinava meio tom abaixo (em Eb). Isso criava uma tensão física considerável e exigia força incomum para os bends. Muitos guitarristas que tentam replicar seu tom em configuração padrão descobrem rapidamente que o segredo está tanto na física quanto na técnica.

Recuperação da dependência e o último álbum
Em 1986, depois de um colapso em turnê na Europa, SRV admitiu dependência de álcool e cocaína e passou por reabilitação. Voltou limpo para gravar In Step (1989) — considerado por muitos críticos seu melhor álbum. A ironia cruel é que sua vida foi interrompida exatamente quando ele havia chegado ao auge artístico e pessoal.
John Mayer tem 'SRV' tatuado no braço

John Mayer, um dos guitarristas mais bem-sucedidos da geração seguinte, considera SRV seu herói absoluto e tem as iniciais "SRV" tatuadas no braço. Gary Clark Jr., Kenny Wayne Shepherd e Jonny Lang são outros que citam Vaughan como a razão pela qual pegaram uma guitarra.

O pesadelo premonitório

Segundo relatos de membros da banda e da equipe, na semana anterior à morte, SRV contou que havia tido um sonho perturbador em que estava no próprio velório e via milhares de pessoas ao redor do caixão. Ele estava em forma excepcional naquele show de Alpine Valley — o último que faria na vida.

'Number One' sobreviveu ao acidente

A lendária Stratocaster "Number One" não estava na aeronave que caiu. Estava sendo transportada por terra com o restante do equipamento da turnê. A guitarra sobreviveu ao seu dono e hoje é propriedade da família Vaughan — um objeto de devoção quase religiosa para a comunidade blues.

Gravação de Texas Flood em três dias
O álbum de estreia de SRV, Texas Flood, foi gravado em apenas três dias no estúdio Downtown Studios de Jackson Browne, em Los Angeles. Browne havia emprestado o espaço gratuitamente após ver SRV tocar. O resultado foi um disco que pareceu gravado ao vivo — porque essencialmente foi.
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Legado e Influência

Stevie Ray Vaughan morreu com 35 anos, mas o que deixou é desproporcional ao tempo que teve. Em sete anos de carreira mainstream, ele não apenas ressuscitou o blues como gênero comercialmente viável — ele estabeleceu um novo patamar técnico e expressivo para a guitarra elétrica que ainda serve de referência hoje.

O impacto de SRV se fez sentir imediatamente após sua morte. Em 1991, seu álbum póstumo The Sky Is Crying chegou ao número um nas paradas americanas. A indústria fonográfica percebeu que havia um apetite enorme por blues autêntico que o mercado havia ignorado. Isso abriu portas para uma nova geração de guitarristas que bebiam da mesma fonte.

Guitarristas como John Mayer, Gary Clark Jr., Kenny Wayne Shepherd, Jonny Lang e Derek Trucks constroem carreiras inteiras em tradição que SRV ajudou a redefinir. Cada um deles menciona Vaughan não apenas como influência musical mas como razão de existência — o motivo pelo qual decidiram que a guitarra valia uma vida inteira de dedicação.

Em 2015, Stevie Ray Vaughan foi postumamente introduzido no Rock and Roll Hall of Fame, ao lado dos membros do Double Trouble, Chris Layton, Tommy Shannon e Reese Wynans. Em 2003, a Rolling Stone o colocou no número 12 da sua lista dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos — uma posição que subestima o impacto real que ele teve.

Mas o legado de SRV não mora em listas ou troféus. Mora em cada guitarrista que um dia encostou a palheta na corda e tentou fazer o instrumento chorar. Mora nas noites de clube em Austin, onde músicos ainda tocam o mesmo blues que ele tocava naquelas mesmas ruas quarenta anos atrás. Mora na forma como a música pode ser ao mesmo tempo completamente honesta e completamente transcendente.

Stevie Ray Vaughan provou que a guitarra elétrica — quando tocada com o coração inteiro — é capaz de falar diretamente à alma humana. Isso não tem data de validade.